Numa sociedade onde o imediato impera, onde a instantaneidade dita os nossos ritmos e expectativas, a criação artística recorda-nos uma verdade fundamental: a arte precisa de tempo. Cresce lentamente, como uma árvore enraizada na terra, absorvendo cada estação, cada sopro de vento, cada gota de chuva. Criar não é um ato trivial; é uma dança com o tempo, um diálogo com a espera.

O mito da produtividade e a perca da sensibilidade

Somos muitas vezes apanhados pela ilusão de que quanto mais produzimos, mais valemos. A eficiência é glorificada, o rápido é preferido ao lento, o “acabado” ao “sentido”. No entanto, a arte não floresce na pressa. Uma fotografia tirada à pressa arrisca-se a não ter significado. Uma pintura executada demasiado depressa pode ter falta de profundidade. Um texto escrito à pressa raramente deixa uma impressão duradoura.

Demorar significa reconectar-se com os sentidos. Significa redescobrir a profundidade das cores, a subtileza das sombras, a música de uma cena que se estende. Ao abrandar, permitimos que os nossos sentidos se apurem, que a nossa visão se aprofunde, que a nossa intuição se exprima.

Observar antes de agir: a paciência como base da criação

Veja os grandes artistas. Van Gogh passava horas a observar um campo antes de o pintar. Cartier-Bresson podia esperar dias para captar o “momento decisivo”. A paciência é a matriz da beleza. Permite-nos captar plenamente a luz, compreender a dança das sombras, ouvir a respiração, o movimento de um lugar.

Na nossa prática, abrandar significa dar importância a cada etapa: sentir a textura do papel antes de desenhar, respirar o ar antes de captar uma cena, perdermo-nos na observação antes de tomar uma decisão artística. Esta paciência transforma a nossa relação com o ato de criar: deixamos de ser meros executantes e passamos a ser transmissores de emoções.

A lentidão como fonte de inspiração

Há uma magia na demora. Um mistério que só se revela a quem aceita que não pode compreender tudo de imediato. O esboço que demora a tomar forma, o poema que se recusa a ser escrito, a fotografia que ainda não aparece… São convites a explorar mais.

Quando abrandamos o ritmo, damos ao inesperado um lugar no nosso processo criativo. Permitimos desvios, erros e fracassos. Deixamos que o material resista, aceitamos que a perfeição não é o objetivo, mas uma miragem.

A paciência também tem a ver com a renovação do nosso olhar. Quantas vezes revisitámos um instantâneo que nos parecia insignificante, para descobrir, meses mais tarde, uma ressonância de que não nos tínhamos apercebido? O tempo decanta e enriquece a obra.

Abrandar significa redescobrir o sabor do momento

Quando nos apressamos, perdemos a verdade. Aquele relâmpago de beleza, aquela emoção subtil que só pode ser captada com um olhar calmo. Abrandar significa reaprender a apreciar as coisas. Significa resistir ao impulso de preencher uma caixa, de finalizar a todo o custo.

O artista é um alquimista do tempo. Absorve, digere e observa. Aceita que o período de gestação é longo, que a ideia precisa de sombra antes de eclodir em luz. Abrandar significa dar a cada gesto o seu peso, a cada decisão a sua importância, a cada emoção o seu espaço.

O silêncio e a lentidão: aliados do criador

Na azáfama do mundo, onde tudo vibra, soa e se impõe, o silêncio é uma suave rebelião. Abrandar significa também criar silêncio dentro de nós. É aprender a escutar o que já não se percebe no tumulto. O silêncio é um cúmplice do olhar, um terreno fértil para a inspiração.

Ao abrandar, experimentamos o vazio fértil. Aquele momento em que nada parece acontecer, mas tudo está em preparação. Nesta espera, há a promessa de um trabalho mais sincero, mais exato, mais vibrante.

Escolher a paciência como um compromisso artístico

Abraçar a lentidão no processo criativo é uma escolha radical num mundo que nos incita a andar depressa. É um compromisso profundo com a autenticidade, com o cuidado que coloca na sua arte.

Quer seja um fotógrafo, pintor, escritor ou músico, a paciência é o seu melhor aliado. Permite-lhe explorar, aperfeiçoar, sentir-se plenamente. Transforma o ato de criar numa verdadeira busca, uma aventura em que cada passo conta tanto como o destino.

Por isso, da próxima vez que sentir a impaciência a crescer, da próxima vez que quiser produzir algo a qualquer preço, lembre-se: a beleza não se entrega a quem a força. Ela se revela para quem sabe esperar. E talvez, ao abrandar, descubra que a própria essência da criação se encontra nesse espaço suspenso entre a intuição e a realização.

Escrito por Alexandrina Cabral

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