Num mundo em que cada imagem parece ser julgada através de filtros e gostos, em que a validação vem através de corações virtuais e comentários instantâneos, o ato de fotografar para si próprio torna-se uma suave rebelião, um abraço silencioso ao seu eu interior. No entanto, quantos de nós ousam realmente entregar-se a esta liberdade? Quantos de nós captam imagens com a simples intenção de se alimentarem a si próprios, sem procurarem satisfazer as expectativas invisíveis de um público omnipresente?

O desprendimento não é algo que se consegue, é um estado que se aprende a cultivar. É a respiração entre dois planos, o espaço vazio numa composição, a pausa numa série inacabada. É um diálogo íntimo consigo próprio, um convite para fotografar pelo simples prazer de dar forma ao invisível.

A ilusão da perfeição

Dizem-nos que para ser um bom fotógrafo é preciso saber enquadrar, expor e compor bem. Mas o “bom” é uma prisão dourada. Fecha-nos em molduras estreitas onde cada fotografia tem de fazer sentido, cada pormenor tem de ser aprovado. E nesta busca pela perfeição, perdemos muitas vezes a magia do gesto puro, a fotografia imperfeita que revela uma verdade escondida.

Fotografar para si próprio significa aceitar rasgar o véu da perfeição. Trata-se de nos permitirmos ser imperfeitos, de explorar sem um objetivo específico. Trata-se de recordar que o valor da fotografia não reside na sua avaliação, mas no processo da sua criação.

O ego e o medo do julgamento

Os nossos egos são frágeis. Procuram a segurança, o aplauso, a prova da sua importância. Quando fotografamos para outros, colocamos as nossas imagens à mercê de opiniões externas. Cada crítica torna-se uma ferida, cada silêncio um desafio.

Mas libertar-se significa aprender a silenciar essa voz preocupada. Significa perceber que o verdadeiro julgamento não vem dos outros, mas de nós próprios. Ao fotografar para si próprio, recupera o controlo. Transformamos o medo do julgamento numa curiosidade benevolente: “O que posso descobrir hoje, deixando a minha intuição guiar a minha objetiva?

A fotografia como meditação

Há algo de profundamente reconfortante no ato de fotografar sem objetivo. Torna-se uma forma de meditação, um momento em que o tempo pára. A lente descansa, a luz dança, o enquadramento respira – e tudo o que importa é o momento presente.

Nestes momentos, não há espectadores. Somos só nós e a nossa câmara. E é nesta solidão escolhida que nasce uma autenticidade rara, um impulso que não procura validação nem aprovação.

Redescobrir a maravilha

Quando fotografamos para nós próprios, recuperamos a maravilha da infância. Lembre-se dos momentos em que utilizava uma câmara descartável sem se preocupar com a técnica, em que captava pormenores insignificantes simplesmente porque lhe diziam respeito, em que explorava o seu ambiente com uma curiosidade insaciável. Essa maravilha não desapareceu; está apenas enterrada sob camadas de restrições e expectativas.

Para a redescobrir, tem de se libertar. Temos de nos livrar do “tu tens de”, do “eu tenho de”, do “o que é que as pessoas vão dizer”. É preciso aprender a ser vulnerável, a encarar a câmara com uma nova humildade: a do explorador que não sabe o que vai encontrar.

A fotografia como um ato de cura

Tirar fotografias para si próprio é também um ato de autocuidado. Trata-se de reservar tempo para si, dando-se a um espaço onde possa ser inteiramente si mesmo. Numa sociedade que valoriza a eficiência e a produtividade, tirar tempo para captar uma imagem sem esperar resultados é uma forma de resistência.

É nestes momentos de introspeção que nos regeneramos. A fotografia torna-se uma conversa com a nossa alma, uma forma de colocar em imagens emoções que ainda não nos atrevemos a nomear.

Liberdade de comparação

Um dos maiores obstáculos à libertação é a comparação. Olhamos para o trabalho de outras pessoas e perguntamo-nos: “Sou suficientemente bom? Mas a verdade é que a fotografia não é uma competição. Cada fotografia é uma expressão única de uma experiência única.

Ao fotografar para si próprio, aprende a apreciar a viagem e não o resultado. Deixa de se comparar e começa a celebrar as pequenas vitórias: a alegria de ter ousado, o prazer de ter explorado.

Dar espaço ao inesperado

Uma das belezas de deixar ir é o facto de abrir a porta ao inesperado. Quando deixamos de tentar controlar todos os pormenores, deixamos espaço para a surpresa, para o aparecimento de algo novo. E é frequentemente nestes momentos de improvisação que nascem as nossas imagens mais bonitas.

Um convite para se escolher

Deixar ir significa dár-se o dom da liberdade. Significa lembrar que a fotografia é, acima de tudo, um ato pessoal, um diálogo íntimo entre a alma e o mundo. Ao fotografar para si, escolhe-se a si próprio. Escolhe viver nos seus próprios termos, seguir o seu próprio ritmo, celebrar a sua própria visão.

Por isso, quer use uma câmara, um smartphone ou uma câmara de filmar, atreva-se. Atreva-se a captar sem pensar, sem tentar agradar, sem esperar outra coisa que não seja a simples e pura alegria de ter expressado uma parte de si próprio. Porque, no final do dia, o melhor público que pode ter é você mesmo.

 

 

Escrito por Alexandrina Cabral

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